AS MINHAS GUERRAS

FEVEREIRO 2021

Velhice nossa de cada dia

 

Eu sei e você sabe também que de forma automática tentamos resistir ao desgaste que o tempo provoca sobre nós ou, sendo mais direto, nos tornamos negacionistas da velhice.

Mas a realidade está aí todos os dias a nos bater na porta e, principalmente, na cara com luva de pelica para uns, com luvas de boxe para outros. Mas a verdade, talvez a única verdade que o é para todos, é que a idade não perdoa, depois da chamada idade do Condor, vem a idade do Com Ir, pois uma vez terminada nossa missão neste planeta que dizem que um dia foi azul desaparecemos da lista de contatos de nossos melhores amigos e um dia chega-nos a notícia de sua última viagem rumo ao desconhecido de onde ainda ninguém voltou, pelo menos que eu tenha conhecimento. Bem sei que este texto é um lugar comum, desgastado pelo uso e abuso, mas precisamos falar nele, é imperativo.

Tudo começa com o velho e determinante cansaço para fazer coisas que antes fazíamos com o maior prazer e até sem que fosse preciso que alguém nos mandasse. Antes, pelo contrário, arrumávamos qualquer desculpa para não fazer outras coisas e fazíamos aquilo que nos apetecia. Hoje, com dificuldade fazemos aquilo que nos sugerem ser bom para a saúde, apenas pela preguiça de nos levantarmos seja do leito, seja da cadeira do vovô em que nos instalamos logo que saímos da cama. A velha “má         quina” já não tem aquela potência de antes, quando puxava todas as carruagens e alguns vagões de babugem e ainda sobrava força para ir assobiando todo o longo do caminho. Vez por outra e cada vez com mais frequência escutamos algum dos nossos dar a noticia que mais uma “locomotiva” fez a última e penosa viagem, silenciando-se para todo o sempre.

Em texto lido recentemente – é uma das poucas atividades que ainda faço prazerosamente – li que a geração de ferro está em vias de extinção. Acredito, corroboro a informação e preocupo-me, tanto mais agora com essa tal de pandemia que parece ter sido encomendada para dizimar esta nossa geração que, entre choros e velas, cumpriu galhardamente a nossa missão, mesmo que não tenhamos tido mais que a nossa irmandade construída no campo do terror, da dor, de parcas alegrias, mas de uma harmonia infinita como recompensa. Nem todos tivemos a mesma sorte. Milhares pereceram no campo da glória que viria a se tornar o campo da Vergonha Nacional – que suas almas estejam junto da nossa padroeira; outros, traumatizados e com sequelas graves, sofrem ou sofreram dores que só quem as passa ou passou pode dizer “quando consegue articular um pensamento com começo, meio e fim” a dor do abandono do estado dito nação – Mãe Pátria, creio que seria melhor chamar de madrasta, – que um dia defendeu. Quantos, ainda em vida nos nossos atuais dias, não “vivem” a não-vida do trauma pós guerra que os faz deambular pelas ruas, sem reconhecer ninguém e sem apoio de quem quer que seja ou de alguma instituição de caridade, que é coisa que nenhum herói de guerra merece por mais só que seja.

Quantos ainda restamos? Onde estamos? Como estamos? Onde foi que a nossa irmandade se desfez? Por que vejo e leio tantas desavenças entre aqueles que um dia precisaram do ombro amigo daquele a quem hoje destratam? Já fomos muito unidos, poderia até dizer, quase como gêmeos nascidos abraçados, mas hoje parece que as coisas ruins do mundo conseguiram nos separar, e nesse estranhamento perdeu-se não só a amizade como aquela força que incutíamos uns aos outras que nos pretendia levar ao sucesso. Alguns conseguiram arribar caminho e fazer de suas vidas um lugar de existência mais ou menos cômodo, outros, mesmo no meio das maiores dificuldades conseguiram ir vencendo barreiras e atingir o ponto em que nos encontramos hoje, num estado tal qual aquelas velhas máquinas a vapor que aguardam a última viagem. Creio que será chegado o tempo de nos darmos as mãos, formarmos em linha, uma frente de luta por um final de batalha honroso e sermos dignificados por aqueles que nunca souberam o que é sofrimento, saudade e solidão. Somos menos, mas ainda somos bravos!

Muitos dos que ainda rolamos por este mundo já perdemos quem mais sofreu por nós, quantas vezes da partida até o seu último dia de vida. Nóas estamos prestes a cruzar a linha de chegada, ao final de uma labuta contra tudo e contra todos, principalmente contra os nossos próprios fantasmas que, queiramos ou não estão sempre aí para nos atormentar trazendo recordações boas, mas principalmente, ruins, efeito do passado que um dia vivenciamos. Acordei hoje de um pesadelo que tive durante a noite, no qual voávamos de Mueda para Nacala e a determinada altura que não sei precisar onde, exatamente, éramos pegos no meio de um furacão e a velhinha DO 27 era arremessada contra uma montanha, qual folha de papel largada ao vento fresco de uma manhã primaveril. Sei que havia mortos, mas dois tinham sobrevivido com diversas escoriações. Amparados um no outro conseguimos sair daquele local e aguardamos a chegada de socorro. Eu estava lá, nesse voo, mas sou incapaz de ver os rostos dos outros companheiros de viagem. Nem sei quantos eram. Coisa dos sonhos que nos mostram situações de forma incompleta. Quando o socorro chegou, olhei para o lado, acordei com minha querida “velha” me chamando para tomar café. Estava vivo! O sonho terminara, mas as imagens ainda bailam diante dos meus olhos e lembro-me de todos e de cada um dos meus irmãos de guerra, que o foram muito mais por eu não ter tido um irmão natural nesta vida que unicamente por estarmos na mesma guerra como se estivéssemos no mesmo ventre.

Quis o destino que eu me desterrasse para longínquas terras e não tenha por perto com quem recordar os velhos tempos idos, resta-me esta plataforma para aqui e acolá trocar uma ideia com pouquíssimos que me acompanham nesta caminhada quase solitária, morna, sem o calor humano da presença de cada um. Estou com saudades!

Queria poder abraçar cada um de vocês!

 

SETEMBRO 2020

SAUDADES

Passatempo de velho é sinônimo de saudade. Passatempo de velho aposentado, sem muitas coisas úteis ao famigerado capital é vender lorota, tentar lembrar – malgrado esquecimento que teima em nos atacar – das boas coisas que fez na vida e, para alguns, uma tentativa de esquecer as besteiras que fez enquanto pode. Passatempo de velho em tempos de pandemia é tentar se esconder para escapar da dita cuja, pois pode representar o velho passaporte só de ida para um local florido (nem sempre) onde só se entra de pés juntos, para a frente.

 

As tecnologias da atualidade não deixam esquecer com tanta facilidade, pois elas registram até os pensamentos da gente que nós não dissemos para ninguém. Foi assim que mais uma vez, depois dos caprichos da manhã, ao pegar no telefone celular escutei uma música da qual me orgulho, muito embora tivesse preferido não a conhecer, mas são escolhas que a gente faz, por isso deve assumi-las como sendo nossa responsabilidade. Sou assim mesmo, não renego o que fiz e se o fiz consciente jamais me arrependerei de o ter feito. Foi pensando nisso que passei boa parte desta manhã escaldante do fim de setembro de 2020.

 

O assunto, em si, é velho, recorrente e teimoso: “Mueda Terra da Guerra” – um fado (musica símbolo de Portugal em todo mundo) criado e interpretado por um colega de desdita nas terras africanas, onde ficaram “ad aeternun”, “ad infinitun”, mais de uma dezena de milhares de jovens que mereciam outro destino. Tal como na pandemia, nem todos que são “tocados” acabam falecendo; assim, nem todos que foram para essa guerra sem motivo sério que a validasse, por lá ficaram, muitos voltaram ao conforte de seus lares e ao aconchego de seus familiares. Tive a sorte de ser um destes últimos. Mas nem tudo foi nem continua sendo fácil para alguns muitos destes que retornaram. Muitos deles estão sofrendo do famigerado “trauma pós guerra”, alguns deles atingidos mais profundamente apenas vegetam. Outros, por falta de apoio estatal que nos havia prometido uma estrutura de amparo no retorno, no campo de emprego, ao encontrarem as famílias desestruturadas, foram viver nas ruas das cidades, vivendo da caridade alheia. Alguns muitos voltaram incompletos, sem braços (assim no plural, pois uns vieram sem nenhum dos braços ou pernas, outros só com um/a), outros sem um olho, alguns completamente cegos e, conheço casos, pelo menos dois, de rapazes que tiveram um dos testículos arrancados à bala. Pode parecer cômico e até seria se não fosse trágico ao ponto de um deles se ter suicidado, segundo justificativa dele por escrito, por não ter como explicar à esposa o ocorrido.

 

Neste dia em que já se completaram 49 anos depois do meu retorno, ainda lembro dos maus e bons momento que por lá passei. Reparem que afirmo maus e bons momentos. Foi esse amalgama de sentimentos que de todos nós verdadeiros heróis de uma pátria madrasta que não nos reconhece enquanto aquilo que somos: HERÓIS e EX-COMBATENTES. Não fossem as poucas fotos que conseguíamos graças ao aparecimento por lá destas câmaras (figura 1), inicialmente depois, mais tarde os chineses levavam para nós, a preço de ouro estas outras (figura 2), não tenho como provar aos meus netos que fui um combatente de guerra. Detalhe: muitos conseguimos comprar dos “chinas” a nossa Konica, mas eram difíceis e caros os filmes de 12 a 36 poses e muito mais difícil a revelação que era feita na capital Lourenço Marques (hoje Maputo), para mim que estive em Moçambique. Quantos rolos de fotos se perderam na ida ou na volta? Não sei dizer.

 

Atrevo-me a dizer que fomos voluntariamente esquecidos para não nos tornarmos uns estorvos aos Srs. do Poder. Mas, que eu saiba, a nossa maior reivindicação é a nossa Honra ao Mérito, o reconhecimento da nação que supostamente fomos defender, para depois sabermos que tudo não passara de um teatro de marionetes em palco real, no qual nós éramos as marionetes e os dirigentes dos quatro países (Portugal, Guiné Bissau, Angola e Moçambique) eram os manipuladores delas. Fomos traídos, enganados, explorados e sacrificados durante 15 anos que foi o tempo suficiente para que a exploração final dos três territórios desse frutos suficientes a um bando de salafrários que se diziam salvadores da pátria que queriam enfrentar o IN (sigla que significa inimigo), mas jamais pegaram numa arma. Pegar nas armas, enfrentar as emboscadas, os ataques surpresa através de morteiros (na minha época eram morteiros de 86mm, mais tarde chegaram os de 122 e até mísseis terra/terra) isso era para o "Zé Pacóvio", entre tantos outros como eu que fui voluntário, por não ter na minha índole o intuito da fuga, da deserção, do abandono do dever.

 

Pois é assim que há dias em que me encontro com a melancolia que tudo isto provoca em mim. A situação se agrava quando a família não reconhece e não respeita o meu desejo de isolamento. Nada digo, curto a minha mágoa, os meus desalentos, as minhas tristezas e alegrias de forma solitária, quando muito desabafo com o meu computador. Nessas horas não me incomoda o que pensem de mim, certamente têm razão. Por esse motivo silencio.

 

          Foto 1                     Foto 2

    yashika             

               

 

Quem desejar escutar o fado de que vos falei - legendado - é só seguirem o link:

https://www.youtube.com/watch?v=MBQ_V10Nnj0

 

Agosto/2020

Quem sairá vitorioso?

Enfrentamos,neste momento uma das piores guerras: uma guerra silenciosa contra um inimigo invisível, covarde, que ataca deixando atrás de si um rastro de morte e afetados para o resto de suas vidas, Não há remédios e muito menos produtos preventivos com tal moléstia. Parecia que eu adivinhava quando na retrospectiva de 2019 anunciava que o ano do duplo 20 prometia. Mal imaginava eu as proporções que este amo iria tomar. As mortes aos milhares não fizeram alguns dirigente imaginar nada pior que uma gripezinha passageira.

Enganaram-se (e não o admitem) mesmo diante de um número assustador como os 100.000 mortos e uma contaminação que ultrapassa os dois milhões de pessoas. Pessoalmente e em razão da minha saúde e da de todos aqueles que comigo dividirem o sacrifício de aguentar um louco no poder, pois em plena pandemia não tem sequer um equipa ministerial na área da saúde, sinto-me apavorado com o comportamento completamente irracional das pessoas que mesmo conhecedoras da situação não respeitam as regras mínimas de proteção pessoal e de colocação em risco de contaminar aqueles que seguem as regras elementares de proteção.

O povo está louco (efeitos da pandemia?) e o mundo de pernas para o ar, as explosões em Beirute, o incêndio na Índia e também na República Tcheca, a queda do avião Canadaire entre Portugal e Espanha (com dois mortos, na defesa de mais um incêndio) ainda ousam desmatar um dos maiores produtores de oxigênio e, principal regulador de chuvas no hemisfério sul, de forma completamente tresloucada em busca do vil metal que existe no subsolo da região.

Muito se falou na possibilidade de mudanças sociais na pós pandemia. Não passa de uma falácia, pois as pessoas não querem começar a transformação por si mesmas. A hipocrisia implica que sejam os outros a mudar para o meu bem estar, Se todos pensarem assim estaremos entrando na fase final da atual sociedade que não terá remorsos de eliminar o próximo para se dar melhor nesta vida. VIDA?

Alguns a quem não receio de tratar de bandidos, talvez tenham um resquício de vida os demais definharão até ao momento final. Não desejo ml a ninguém, apenas espero que a Mãe Natureza seja implacável com toda a população mundial, Ninguém é mais merecedor que os outros em se tratando de hipocrisias.

O tempo nos mostrará qual o caminho mais certo a seguir os divergentes que arquem com as consequências da irresponsabilidade,

 

Janeiro/2020

O ano que promete

2020 o ano em que completo 71 anos (podia dizer primaveras, pois foi na primavera que eu nasci), mas considerando que neste espaço vou falar das “minhas guerras”, não gostaria que alguém pensasse que eu estava a pensar na “Primavera de Praga”, renomado filme que retrata justamente alguns dos horrores das guerras.

Não falo de brigas de rua, nem luta de classes, falo de guerras com armas, mortos, feridos, estropiados, eventrados, doentes mentais e tudo que de ruim pode um ser humano padecer.

Assim, por alto, das cinco que já aconteceram e atingiram de algum modo o plano mundial, já conto cinco, muito embora só tenha enfrentado três. Acreditem que mesmo sendo apenas três, são mais que suficientes para deixar o psíquico de qualquer um bem abalado. Tenho resistido, Penso merecer uma condecoração, ou pelo menos que a história me coloque meu devido lugar, ao mesmo tempo em que coloca todos os outros companheiros irmãos de luta. Não sou, não quero ser, nem serei, jamais, o herói solitário.

Esta é, portanto, uma longa história que precisarei ir contando aos poucos (qual novela/série da globo). Por isso convido os meus amigos leitores a acompanharem mais esta saga que, espero não seja a última, pretendo viver. Eu sei, não sou mais nenhum jovem na idade, mas na mente, felizmente, pareço um jovenzinho dos seus 25 anos, em pleno vigor, embora a carcaça já não aguente o tranco. Boa parte desta saga já está registrada em um livro que acabei de publicar (e para o qual já tenho o segundo volume pronto, faltando apenas o apoio do vil metal para realizar mais esse desejo).

Como sei que muita gente não poderá ter acesso aos livros na sua forma física, vou tentar aos poucos deixar aqui registradas essa minhas guerras. Posso dizer que são muitas, mas nem todas são comuns de muitos (algumas são particulares, mas nem por isso, menos importantes que as demais). Preciso confessar que a melhor forma de conhecê-las é através da leitura dos livros por estes serem portadores de maiores detalhes e minúcias.

O segundo terá um título muito próximo a “Narrativas e Vivências” sobre um fundo bem português: azulejos, tal como mostra na figura a seguir:

Tudo que não foi possível colocar no primeiro livro, para não quebrar uma sequência lógica, eu preferi trazer para este novo livro, bem mais “leve” que o primeiro, não que as narrativas não contenham 199% de verdades, mas porque deixei aquelas mais soltas, acontecimentos quantas vezes banais que se transformaram numa narrativa que ajuda a compreender todas essas minhas guerras de que falo no início deste post. Além disso também traz velhos ditados (e outros não tão velhos) que nos ajudam, sobremaneira a refletir e levar uma existência um pouco menos carregada pelos fardos que a vida nos vai colocando sobre os ombros.

Tenho a minha Dissertação de Mestrado pronta para publicar (depois de 24 anos, finalmente eu consigo comprovar a minha tese dissertativa do fim do Mestrado), Tenho, também a minha Tese doutoral preparada para a publicação, mas quero dar mais um tempo para, tal como aconteceu com a Dissertação, ela venha a finalmente se comprovar na prática, pois teoricamente , com apoio em 120 documentos, fora as opiniões que “ouvimos do nosso referencial teórico” ela esta consolidada, fundamentada, mas no meu entendimento necessita da comprovação no campo empírico em que situei a minha pesquisa.

Já estão aprovados e até “rabiscados” mais dois projetos para duas outras obras. Estou, finalmente aposentado. O tempo sobra e a inércia me machuca demais. Procuro o que fazer e o que eu sei fazer (ah, não me pergunte, pois passaria aqui o resto do ano a falar do que sei fazer), mas neste momento o mais importante é saber o que ainda posso fazer, até como forma de vencer uma de minhas guerras.

Peço-lhes um pouco de paciência. Logo que possível (na medida em que aqui for escrevendo), irei revelando os novos projetos.